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A Santa Igreja das Privatizações

por Pedro Silva, em 11.09.18

Imagem crónica RS.jpg 

Ainda a respeito do actual estado de coisas na ferrovia portuguesa (um assunto que agora já não interessa a ninguém), li algures um texto de opinião de um defensor da privatização total da exploração da dita.

 

Obviamente que parto do principio (do qual sou um acérrimo defensor) de que cada pessoa tem direito à sua opinião e a expor a dita opinião. Agora, na minha perspectiva, convêm que a opinião seja minimamente fundamentada e, sobretudo, que faça algum sentido lógico.

 

O problema do texto em questão está, essencialmente, na fundamentação que serviu de base à formulação do juízo de opinião de quem acha que a empresa Caminhos de Portugal (CP) deve ser totalmente privatizada porque, segundo o exemplo dado pelo autor da ideia, em Inglaterra a privatização do sector da ferrovia nos idos anos 80 teve uma taxa de sucesso de 3%. De lado ficou o facto de os ingleses terem uma cumplicidade histórica enorme com a dita ferrovia quando comprados com a realidade portuguesa e as constantes e ainda muito actuais enxurradas de reclamações que os utentes da ferrovia das Terras de Sua Majestade fazem relativamente ao precário serviço prestado pela tão ferrovia totalmente privada. A culpa, digo eu (seguindo a lógica do autor), será do complexo processo de privatização inglês, embora o dito autor não tenha perdido muito do seu precioso tempo a explicar em que consistiu tal processo.

 

Mas há mais. Seguindo ainda a lógica do crente da doutrina da Santa igreja das Privatizações, os variadíssimos problemas que os nossos comboios enfrentam resolvem-se com a entrega da exploração dos ditos a privados e com a criação da mística figura do Regulador. Assim como se de uma espécie de Cardeal que, face à experiência recente no nosso país, nada faz e nada diz sobre as “toneladas” de reclamações que recebe diariamente.

 

Sinceramente, há coisas que devem ser vistas e analisados tendo pro base a dura realidade. Realidade que não está expressa nas páginas de um qualquer excel e muito menos nos enormes “calhamaços” teóricos dos doutrinários da Santa Igreja das Privatizações.

 

Já aqui o disse e repito, sectores existem que pela sua natureza não podem – nem devem! – ser privatizados. A ferrovia portuguesa, por muito que custe a muito boa gente aceitar tal, não pode, nem deve ser privatizada. Nem total, nem parcialmente. Isto porque o investidor que invista numa privatização de um qualquer sector outrora nas mãos da gestão do Estado vai, legitimamente, exigir o devido retorno do seu investimento. E exige tal seja a que custo for. Tal passa pelo fecho de estações, supressão de comboios/serviços, despedimento de pessoal, precariedade das condições de trabalho e, inclusive, comparticipações do Estado/Autarquia caso este mesmo investidor seja obrigado a ter de assegurar um qualquer serviço minimalista em zonas que lhe dão prejuízo.

 

Para além de tudo o que já aqui expus - corrijam-me se estiver errado - tirando o sector das telecomunicações, a tal de “liberalização total” redundou sempre num enorme prejuízo para o consumidor/utente. Mesmo que a tal “liberalização total” seja patrocinada/forçada pela União Europeia.

 

Ora, evitando já certos pensamentos e ideias pré concebidas que são repetidas até à exaustão, eu não sou a favor da manutenção e/ou criação de enormes empresas estatais.

 

Sou antes favorável à manutenção das empresas estatais onde estas sejam manifestamente necessárias e que estas sejam alvo de uma gestão correcta e enquadrada à realidade em que se encontram a laborar. Dito de outra forma e colocando em ciam da mesa o assunto aqui em análise;  eu não sou favor da privatização total ou parcial da CP em nome de uma taxa de sucesso inglesa na ordem dos 3%.

 

Eu sou antes a favor de que haja coragem e decência da parte de quem nos governa (e pretende governar) para que a gestão da CP seja algo que é pensado para a década e não consoante as vontades e orientações políticas de cada Governo.

 

Isto tudo porque, repito, o sector da ferrovia portuguesa é algo que pela sua natureza não se pode, nem se deve, privatizar sem que tal tenha um enorme custo para a população em geral.

 

Artigo publicado no site Repórter Sombra (11/09/2018)

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publicado às 21:30


Vamos então falar dos comboios

por Pedro Silva, em 20.08.18

imagem crónica RS.jpg 

Nos últimos tempos tem sido muitas as notícias sobre os Caminhos de Portugal (CP). E não tem sido notícias positivas. São negativas. Muito negativas. Negativas demais na minha opinião. Tal até que faz lembrar a antiga estratégia do anterior Governo liderado por Pedro passos Coelho do qual Assunção Cristas, actual líder do CDS, fez parte. Quando o Governo tinha na mente a privatização de um qualquer seu sector, eis que primeiro se procurava “bombardear” o cidadão com todo o tipo de notícias negativas sobre a empresa que se pretende privatizar para, desta forma, se criar a ideia de que é uma fatalidade para todos manter-se a gestão pública de certa empresa e depois privatizava-se a dita. Este processo foi levado a cabo aquando da famosa privatização dos CTT. Agora é o que se vê e sabemos.

 

Não estou com isto a dizer que os nossos serviços ferroviários em Portugal não têm problemas. E também não estou aqui a procurar, de forma alguma, colocar num saco roto as muitas queixas legítimas do utente da CP. Não é por mero acaso que muitas vezes os maquinistas fazem greve. O problema é que quando o fazem estes mesmos utentes que se queixam da qualidade do serviço na CP, são os primeiros a criticar a greve dos maquinistas. Mas isto é somente um aparte. Um dia talvez volte a esta temática. O que interessa agora é perceber o que se passa naquilo que popularmente de “comboios”.

 

O real cerne da questão é que historicamente Portugal é um país que nunca deu real valor ao comboio. Na maioria dos países da Europa Central e do Leste – muito por força da 2.ª Guerra Mundial, diga-se de passagem – o comboio assume um papel essencial (diria até mesmo que vital) na vida de qualquer cidadão. No Oriente tal é também uma realidade. Já cá pelo nosso pequeno Burgo, o comboio é visto mais como algo que se utiliza para dar a malta rica dar um passeio aqui e acolá. Isto se não for possível ir de carro, ora pois, dado que o português usa o sagrado automóvel para ir comprar pão à padaria do lado.

 

A juntar ao exposto anteriormente há o – muito desconhecido – facto de Portugal e Espanha terem uma ferrovia única no Mundo no que ao seu formato diz respeito. A chamada Linha Ibérica é uma pesada e fastidiosa herança dos Salazarismo/Franquismo que obriga a que ambos os países tenham de ter cuidados muito especiais no que á sua ferrovia diz respeito. A manutenção da dita linha é feita, em exclusivo, por portugueses e espanhóis. O mesmo se pode dizer das locomotivas e carruagens cuja produção e manutenção é um exclusivo da Península Ibérica.

 

Ou seja, se juntarmos a tudo o que já aqui disse ao constante “apertar de cinto” patrocinado pela Europa (e não só) tudo se conjugou ao longo dos tempos para que o desleixo por parte do Governo central relativamente à CP fosse, cada vez mais, uma medonha realidade.

 

Cabe-nos agora a nós, cidadãos, exigir a cabal - e mais do que necessária – melhoria da nossa ferrovia. Especialmente nos tempos que correm em que há uma necessidade premente de nos deslocarmos de uma forma rápida e eficaz entre as nossas cidades dado que os desafios laborais que se colocam a todos nós são – por força dos tempos que correm -, naturalmente, cada vez maiores. E esta exigência não pode, nem deve passar pela “vingança” que António Lobo Xavier e outros neo liberais como ele tanto desejam. Esta tem de passar pela pressão sobre o actual e futuro(s) Governo(s) para que este aplique o dinheiro dos nossos impostos na  prestação de serviços que, por causa da sua natureza, tem de ser públicos. Privatizar somente porque se quer “despachar o embrulho” só traz problemas. Veja-se, mais uma vez a título de exemplo, a desgraça que são os CTT privatizados.

 

Artigo publicado no site Repórter Sombra (20/08/2018)

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